Heróis da vida real: Zilda Arns e o bom combate.

15 01 2010

  

Segundo o dicionário Aurélio a palavra herói é um substantivo masculino que designa um “homem extraordinário por seus feitos guerreiros, seu valor ou sua magnanimidade”, infelizmente nunca uma palavra teve o seu significado tão deturpado como esta nos dias atuais. 

 Que o diga o Sr. Bial e os seus “heróis” de uma vez por ano enlatados (ou enjaulados) e os congêneres saídos das profundezas dos realittys que pipocam aos montes na tv…  

Pois então, relembremos que herói é quem enxerga o sofrimento alheio e procura dentro de suas possibilidades amenizá-lo (o velho olhar além do próprio umbigo), é aquele cuja paixão sobrepuja a omissão, que vence as próprias limitações e vícios para se tornar magnânimo, longe dos holofotes e das cameras, não são afeitos a encenações milimetricamente calculadas conforme caminham os índices do IBOPE, mas a gestos concretos de partilha. 

O herói é aquele que sabe que ninguém precisa de grandes sacrifícios ou grandes privações para fazer a diferença ou para ser considerado excepcional, mas precisa, fazer das suas atitudes mais simples às mais reais, porque estas é que movem e comovem o mundo. 

O herói está no asfalto, na rua, no hospital ao lado do que sofre, está nas esquinas ao lado do abandonado, na labuta do dia a dia e o seu mérito não está em suas caras e bocas. 

Os verdadeiros heróis são em sua grande maioria anônimos, morrem sem honras de estado, sem pompa, sem milhões, apenas com a consciência de ter feito o melhor para si e para o mundo,  que “combateram o bom combate”.

Talvez todo o dito aqui não passe de clichê, mas ainda assim não deixa de ser uma reflexão necessária, ainda mais em um mundo que cultiva como padrões de heroísmo as celebridades, os “brothers” a despeito daqueles que beneficiam e de alguma forma enriquecem não apenas a si mesmos, mas também as pessoas e o mundo. 

Não, definitivamente o herói não está confortavelmente na “casa mais vigiada do Brasil”, imerso num ambiente hedonista de sexo sob edredons, festas, bebedeiras, cujos maiores perigos a que se encontram expostos são os paredões, a rejeição do público,  não ganhar o prêmio milionário ou não se tornar a celebridade da próxima novela das oito…  

 Uma pena que somente quando nossos heróis verdadeiros partem é que voltamos a redescobrir o sentido deste substantivo. 

Mulher extraordinária

Eis a definição do dicionário Aurélio para heroína, o que bem define a Sra. Zilda Arns Neumann 75 anos médica pediatra e sanitarista, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança, fundadora e coordenadora nacional da Pastoral da Pessoa Idosa, organismos de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Dra. Zilda Arns também foi representante titular da CNBB, do Conselho Nacional de Saúde e membro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES).

Em 1983, a pedido da CNBB, a Dra. Zilda Arns cria a Pastoral da Criança juntamente com Dom Geraldo Majela Agnello, Cardeal Arcebispo Primaz de São Salvador da Bahia, que na época era Arcebispo de Londrina.

 Foi então que desenvolveu a metodologia comunitária de multiplicação do conhecimento e da solidariedade entre as famílias mais pobres, baseando-se no milagre da multiplicação dos dois peixes e cinco pães que saciaram cinco mil pessoas, como narra o Evangelho de São João (Jo 6, 1-15).

A educação das mães por líderes comunitários capacitados revelou-se a melhor forma de combater a maior parte das doenças facilmente preveníveis e a marginalidade das crianças.

Estima-se que após 25 anos, a Pastoral acompanha mais de 1,9 milhões de gestantes e crianças menores seis anos e 1,4 milhão de famílias pobres, em 4.063 municípios brasileiros. Seus mais de 260 mil voluntários levam fé e vida, em forma de solidariedade e conhecimentos sobre saúde, nutrição, educação e cidadania para as comunidades mais pobres.

No ano de 2004, a Dra. Zilda Arns recebeu da CNBB outra missão semelhante, fundar, organizar e coordenar a Pastoral da Pessoa Idosa. Calcula-se que atualmente mais de 129 mil idosos são acompanhados todos os meses por 14 mil voluntários. 

Até sua morte no terremoto do Haiti na terça-feira (12), a Dra. Zilda coordenava cerca de 155 mil voluntários, presentes em mais de 32 mil comunidades em bolsões de pobreza em mais de 3.500 cidades brasileiras.

O trabalho dela serviu de modelo para vários países, como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau; Timor Leste, Filipinas, Paraguai, Peru, Bolívia, Venezuela, Argentina, Chile, Colômbia, Uruguai, Equador e México. Sendo que em algumas dessas nações a própria médica ministrou cursos sobre como estruturar as ações.

Em 2008, Zilda participou da instituição da Pastoral da Criança Internacional, no Uruguai. Entre os fundadores estão os cardeais arcebispos Dom Geraldo Majella Agnelo, de Salvador, e Dom Odilo Pedro Scherer, de São Paulo, entre outros líderes religiosos e da sociedade civil.

Um trabalho de inequívoco apelo social, mas também de grandeza moral.

Em vez de usar as dificuldades da população pobre como matéria de proselitismo, a exemplo de ONGs movidas pela vigarice política ou autopromoção como algumas celebridades por aí, Zilda seguia a máxima cristã: deixava-se conhecer pela Palavra, mas também pela obra. A famosa “farinha múltipla” salvou certamente milhares de vidas, Zilda trabalhava efetivamente para minorar o sofrimento humano.

Dra. Zilda morreu como viveu: servindo ao próximo, fazendo a diferença objetivamente na vida das pessoas, atuando em favor dos mais necessitados, sem deixar que as condições as mais extremas abalassem a sua fé, os seus princípios, suas convicções.

Uma heroína de grandeza moral, integridade de carater, firmeza de postura e de carne e osso, mártir da vida!

Fontes de pesquisa: uol notícias, www.pastoraldacrianca.org.br

 

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2 responses

10 03 2010
Ana Luisa

Bom post! Nao sou tao radical quanto o amigo do comentario anterior, apesar de nao ser uma bebezete acredito que todos os publicos devam ter acesso ao seu opio, vai do criterio de cada um levar seu entretenimento mais a serio do que deveria ou nao. Quanto a Zilda Arns sem comentários exemplo de mulher! O blog está bom achei por acaso e já vi praticamente ele todo, parabéns!

8 03 2010
Natã

Bom post! Concordo em genero numero e grau. Zilda Arns foi nâo apenas modelo de mulher, mas sobretudo, modelo de humano. Fiel a seus principios, a sua fé, fiel ao amar ao próximo como a ti mesmo…Diferentemente dos ratinhos de laboratório dos BBB´S que pipocam na TV para minha felicidade, pois, se já lia muito esse programa ruim só me empurrou mais para os livros. Pena que não seja a grande realidade deste país de gente medíocre que leva a sério essa tipo de porcaria. Coitados. Só para os aficionados de plantão aí vai um link com a opinião de Bial sobre o BBB e os seus telespectadores http://www.youtube.com/watch?v=oeMuzbsdEF0. Ironia que diz tudo e olha que é o ganha pão dele. Continuem nos presenteando com ótimos posts.

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