Ano novo com mais Gentileza!

7 01 2011

Entra ano e sai ano é sempre assim: provavelmente você se vestiu de branco, pulou as sete ondinhas, fez seus propósitos para o ano novo e saiu para o abraço, certo?

Vai um champagnezinho aí?

Tudo muito lindo e muito maravilhoso em uma época propícia para a confraternização, porém, no transcorrer do ano o buraco se torna mais embaixo; correria, stress, todo o afeto e gentileza do final do ano vão por água abaixo…

E se mais do que uma meta, cultivar a gentileza e propagá-la ao mundo se transformasse em uma missão?

Foi exatamente isto que aconteceu a partir dos anos 70 com um senhor chamado José Datrino, que sob a alcunha de Profeta Gentileza tornou-se conhecido por fazer inscrições peculiares sob o viaduto do Caju no Rio de Janeiro e por tornar-se arauto da “Gentileza que é o remédio para todos os males”.

Como diria Obama: that's is the guy!

Oriundo de uma família humilde do interior paulista, desde cedo Datrino teve de trabalhar duro para ajudar no sustento de seus 11 irmãos e a partir dos 13 anos passou a ter premonições sobre sua missão na terra, acreditando que um dia depois de constituir sua própria família e bens abandonaria tudo em prol de seu destino.

Já adulto e morando no Rio de Janeiro tornou-se um próspero empresário do ramo do transporte de cargas, teve sua vida totalmente modificada quando na cidade de Niterói o Gran Circus Norte-Americano pegou fogo e matou 500 pessoas no ano de 1961.

Seis dias após o ocorrido e faltando apenas dois dias para o Natal, Datrino, segundo suas próprias palavras, teria ouvido vozes astrais que o mandavam abandonar o mundo material e dedicar-se inteiramente ao mundo espiritual.

Pegando um dos caminhões da frota de sua empresa dirigiu-se até o local da tragédia e sob as cinzas do circo criou um jardim e uma horta, tornando-se inclusive morador do local por 4 anos de sua vida.

Passou também a consolar voluntariamente os familiares das vítimas do incêndio com suas palavras de bondade e conforto, passando a se chamar João Agradecido.

O nome de “Profeta Gentileza” foi ganho porque vivia pregando o amor, a paz e pedia  sempre “por gentileza”. Jamais dizia a palavra “Obrigado”, pois dizia que obrigado vinha de obrigação e preferia dizer “agradecido”.

Após ter se retirado do local que passou a ser conhecido como “Paraíso Gentileza” iniciou sua jornada como andarilho.

Com um visual bem inusitado para o século XX: uma bata branca cheia de apliques com mensagens positivas, barba longa e longos cabelos, José Agradecido ou Profeta Gentileza como também era conhecido; não hesitava em propagar suas mensagens, flores e seu “lifestyle” pelas ruas, praças, trens, ônibus e barcas de travessia entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói.

Anatomia da gentileza.

Pregando sempre sobre bondade, respeito ao próximo e a natureza (já nos idos de 70), amor e gentileza, denunciava o “mundo regido pelo capeta capital que vende tudo e destrói tudo” tinha como refrão recorrente, inclusive nos mais de 1,5 Km nas 56 pilastras do viaduto onde escreveu em verde e amarelo suas mensagens, “gentileza gera gentileza” como uma via alternativa à brutalidade do atual sistema de relações entre as pessoas.

Profeta tropical, mensageiro da gentileza.

Não admitia receber esmolas: “é mais fácil um burro criar asas e avoar do que um centavo de alguém aceitar”. Ao contrário, alertava: “cobrou é traidor – o padre está esmolando, o pastor tá pastando e o Papa tá papando, papão do capeta capital”.

A pregação anti-capitalista constituiu a denúncia maior do Profeta. Às vezes foi tomado como comunista, tendo que explicar às “autoridades” o porquê das iniciais PC em seu estandarte (na época). Na ambigüidade criada, não se tratava de uma vinculação ao Partido Comunista, mas ao Pai Criador.

Durante a badaladíssima Eco 92 (alguém é desta época?) Gentileza postava-se estrategicamente no lugar por onde transitavam presidentes, primeiros-ministros e outras autoridades incitando a viverem a gentileza e a aplicarem em toda terra.

"Quem é mais inteligente, o livro ou a sabedoria? Não é a sabedoria? Então eu sou a sabedoria, nós somos a sabedoria de Deus."

Chegou a ser internado 3 vezes em hospitais psiquiátricos. Os pacientes ficavam a sua volta, ouvindo atentamente suas pregações, até mesmo um dos psiquiatras disse que os choques eram à toa: José não era louco e outro teria dito: “Gentileza, você veio para te curarmos ou para nos curar?”.

Quando chamado de louco, dizia: “sou maluco pra te amar, louco pra te salvar” … “seja maluco mas seja como eu, maluco beleza, da natureza, das coisas divinas.”

Entretanto não se pode esquecer o fato de que mesmo sendo uma “pessoa iluminada” o Profeta Gentileza era acima de tudo demasiado humano, passível de contradições e erros, pois, segundo um artigo de autoria da professora Luiza Petersen e do jornalista e escritor Marcelo Câmara, que conviveram com Datrino (“Jornal do Brasil” de 21/02/2010), apesar de falar reiteradamente em gentileza, era “agressivo, moralista e desbocado […] Vociferava, ofendia e ameaçava espancar transeuntes”, ao ponto de às vezes ser necessário chamar a polícia para acalmá-lo.

“Suas principais vítimas eram as mulheres de minissaia ou com calças apertadas, de cabelos curtos, que usavam maquiagem, salto alto e adereços […] A maioria da população, especialmente as mulheres e crianças, fugiam dele”. Segundo estes autores a imagem que se criou dele após sua morte, não corresponde às lembranças dos que conviveram com ele durante os anos 1960 e 1970.

Calma profeta, sou uma moça de família!

O fato é que a atemporalidade de sua mensagem e seus escritos transcendem toda e qualquer imperfeição comportamental.

Sua monumental e singular obra escrita em verde, amarelo e preto com fundo branco, gravada em 56 pilares do viaduto do Caju com mensagens sobre amor, natureza, espiritualidade, capitalismo e como não poderia deixar de ser gentileza, embora para muitos pareça estranha e até mesmo errada é dotada de grandes significados como no caso da palavra amor que grafada “Amor” com um R queria dizer amor material e grafado com três R (Amorrr) é o amor do Pai, Filho e Espírito Santo, ou seja, espiritual.

Criando toda uma curiosa simbologia religiosa que desperta a atenção pelo acréscimo de letras nas palavras, adotando um caráter trinitário e quaternário, Gentileza desenvolve também em sua linguagem: o UNIVVVERRSSO é a criação conjunta de F/ P/ E (Pai, Filho, Espírito) em VVV e duplamente participação em RR e SS. Assim como o AMORRR ao qual ele sempre se referia: “amor material se escreve com um R, amor universal se escreve com três R: um R do Pai, um R do Filho, um R do Espírito Santo – AMORRR”. Esta mesma marcação aparece em F/ P/ E/ N, incorporando um quarto termo (N) SSENHORRA em sua visão religiosa.

Para o Profeta, todos estes termos manifestam gentileza, reafirmando a extensão de sua simbologia.  A eficácia de sua alternativa recolhe sua força do alcance de seu próprio desígnio e daquilo que este é capaz de promover: GENTILEZA GERA GENTILEZA, nos convoca o Profeta, proclamando um Princípio ético e divino no mundo.

Não é Moisés com os dez mandamentos, não. É o Profeta Gentileza espalhando a bondade!

Quando era acusado de não saber escrever, ele respondia da seguinte forma: “Eu que não sei escrever ou você que não sabe ler? Conheser é de conhecer o ser, conhecer a si mesmo”.

Após sua morte no ano de 1996 as mensagens foram alvos de pichadores e posteriormente cobertas com tinta cinza pela prefeitura, vindo a ser completamente restauradas no ano de 2000 com o Projeto Rio com Gentileza.

Em 29 de maio de 1996, aos 79 anos, faleceu na cidade de seus familiares, onde se encontra enterrado, no “Cemitério Saudades”.

Com o decorrer dos anos, os murais foram danificados por pichadores, sofreram vandalismo, e mais tarde foram cobertos com tinta de cor cinza, fato que mereceu até uma canção protesto da consagrada artista Marisa Monte.

Com ajuda da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, foi organizado o projeto Rio com Gentileza, que teve como objetivo restaurar os murais das pilastras, que foram completamente restauradas no ano 2000.

Foto da restauração dos murais.

Ao restaurar as imagens o projeto restaurou também o olhar peculiar do Profeta ante seus semelhantes, o cuidado com o próximo valendo-se apenas do mais simples do gestos, a gentileza.

Lembre sempre do profeta, inspire-se com suas palavras e não se esqueça: “gentileza gera gentileza”!

Fontes:  Rio com Gentileza, wilkipédia, www.nicholasgimenes.blogspot.com, www.jeffcelophane.wordpress.com 

Crédito das imagens: Rio com Gentileza

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Muito além do sítio

26 03 2010

Há 90 anos acontecia a publicação de A Menina do Narizinho Arrebitado, primeira estória para crianças de Monteiro Lobato. Foi com essa obra que o escritor começou sua trajetória na literatura infantojuvenil, que o tornaria referência no país e no mundo. Mas a contribuição de José Bento Renato Monteiro Lobato para o país foi muito além. Advogado, fazendeiro, jornalista, editor, empresário. Acima de tudo, foi um idealista, estando sempre envolvido com as causas da época em que viveu. Lutou por um Brasil mais brasileiro e por uma literatura mais acessível, deixando para a geração atual uma obra crítica e esclarecedora sobre temas contemporâneos como qualidade da saúde, meio ambiente, reforma agrária e petróleo.

Viu? O homem não era só um rostinho bonitinho com uma sombrancelha bem delineada não...

Viu? O homem não era só um lindo rostinho com uma bela sobrancelha não...

Nascido em 18 de abril de 1882, Monteiro Lobato formou-se em Direito e atuou como promotor público, mas nunca escondeu sua paixão pelas letras. Desde os tempos de escola e também na universidade, colaborava com os jornais estudantis e, após sua formatura, passou a escrever artigos e fazer ilustrações para diversos veículos de comunicação. Logo, se tornou colaborador do maior jornal da época, O Estado de São Paulo, para o qual escrevia críticas e opiniões polêmicas a respeito do governo.

O papai da Menina do Narizinho Arrebitado, da boneca Emília, do Visconde de Sabugosa e outros não era fraco não!

Mas, foram as estórias infantis – responsáveis por metade de toda produção literária de Monteiro Lobato – que consolidaram o sucesso e a fama do autor. Quem nunca ouviu falar de Emília? Uma boneca de pano – descrita por Lobato como essas “que nas quitandas do interior custavam 200 réis” que, depois de ter sido visitada pelo doutor Caramujo, tomou uma “pílula falante“, e nunca mais parou de falar.

A boneca e os conhecidos personagens – Narizinho, Emília, Tia Nastácia, Pedrinho e Dona Benta, estavam presentes na maioria das estórias do autor. Ele costumava ainda juntar a esse grupo, figuras de diversas áreas como cinema, folclore e mitologia. Era possível encontrar no Sítio do Picapau Amarelo, Peter Pan, Saci-Pererê e, até mesmo, um minotauro.

Na sua produção de livros infantis, Lobato somou mais de 20 obras e diversos contos.

Foi precursor também na literatura paradidática, criando estórias que envolviam disciplinas escolares, como Aritmética da Emília, Geografia da Dona Benta e História do Mundo para Crianças. Além disso, traduziu e adaptou diversos livros estrangeiros, criticou livros já traduzidos e republicou-os, usando uma linguagem que chamou de “abrasileirada”. Alguns deles foram contos dos Irmãos Grimm, Robson Crusoé, Moby Dick e Alice no País das Maravilhas.

Se metade de sua produção literária foi infantojuvenil, pode-se dizer que a outra metade foi influenciada pelo seu envolvimento político.

Lobato trazia para suas histórias um pouco do que vivenciava, do seu espírito crítico e da realidade enfrentada pelo país. Mais do que isso, usava seus personagens para despertar a atenção sobre diferentes problemas.

Em uma série de artigos em que falou sobre saúde pública e saneamento apresentou um de seus mais conhecidos personagens: Jeca Tatu. Lobato o descreveu como um morador rural, sem hábitos de higiene. Para ele, essa era a figura de todo camponês, cuja personalidade seria resultado do atraso, da miséria e da exclusão social. A polêmica correu o país, ajudando a tornar o escritor conhecido e a obra Urupês – coletânea desses artigos -, um bestseller.

Agricultura, ecologia e saúde pública foram assuntos recorrentes em artigos e textos, que vieram a se tornar livros. O Escândalo do Petróleo, por exemplo, foi lançado em 5 de agosto de 1936 e, em poucos dias, os exemplares sumiram das prateleiras. Em 14 de agosto, foi lançada a segunda edição, com a mesma procura. Na obra, Lobato critica a política brasileira de exploração petrolífera e começa com a frase – polêmica, como era de se esperar: “Exércitos, marinhas, dinheiro e mesmo populações inteiras nada valem diante da falta de petróleo”.

Esse assunto rendeu mais do que polêmica para o autor, atraiu a inimizade de pessoas muito influentes no Brasil da época. Crítico inconformado que era, escreveu sobre a política de exploração de minérios ao então ditador Getúlio Vargas, mas foi acusado de tentar desmoralizar o Conselho Nacional de Petróleo e condenado a seis meses de prisão. Mesmo depois de libertado, continuou a divulgar suas opiniões, incluindo nos assuntos as torturas realizadas pela polícia do Estado Novo e os novos problemas que o país enfrentava.

A -HA, U-HU o petróleo é nosso...

Em 1947, escreveu Zé Brasil, que seria seu último texto. Nele, indignado, Lobato tornou Jeca Tatu um trabalhador rural sem-terra, que lutava por um espaço para plantar. Nos seus últimos anos, Monteiro Lobato sofreu com a censura da ditadura, com o processo de liquidação das suas empresas, com a morte de dois filhos e com a realidade de um país ainda cheio de problemas. Aos 66 anos, em 1948, sofreu dois acidentes vasculares cerebrais e morreu, deixando literatura de qualidade e espírito crítico para leitores de todas as idades. 

Fonte: Artigo retirado da Revista Ler & Cia, Março e Abril de 2010 – Edição 31 – Livrarias Curitiba págs. 08 e 09.





Tá pensando em pedir pra sair?

25 01 2010
De autoria desconhecida provavelmente não há quem não tenha recebido esta mensagem via email, porém, nunca é demais relembrar à todos que até mesmo grandes celebridades e vultos históricos também já tiveram seus revezes na vida. Mas foi a atitude e persistência que fizeram o diferencial.

O General Douglas MacArthur foi recusado na Academia Militar de West Point, não uma vez, mas duas. Quando tentou pela terceira vez, foi aceito e marchou para os livros de história.

 

O superstar do basquete, Michael Jordan, foi cortado do time de basquete da escola.

Winston Churchill repetiu a sexta série. Veio a ser o primeiro ministro da Inglaterra somente aos 62 anos de idade, depois de uma vida de perdas e recomeços. Sua maior contribuição aconteceu quando já era um "cidadão idoso".

Albert Einstein não sabia falar até os 4 anos de idade e só aprendeu a ler aos 7. Sua professora o qualificou como "mentalmente lerdo, não-sociável e sempre perdido em devaneios tolos". Foi expulso da escola e não foi admitido na Escola Politécnica de Zurique.

Ao recusar um grupo de rock inglês chamado The Beatles, um executivo da Decca Recording Company disse: "Não gostamos do som. Esses grupos de guitarra já eram".

Quando Alexander Graham Bell inventou o telefone, em 1876, não tocou o coração de financiadores com o aparelho. O Presidente Rutheford Hayes disse: "É uma invenção extraordinária, mas quem vai querer usar isso?"

Thomas Edison fez duas mil experiências para conseguir inventar a lâmpada. Um jovem repórter perguntou o que ele achava de tantos fracassos. Edison respondeu: "Não fracassei nenhuma vez. Inventei a lâmpada. Acontece que foi um processo de 2.000 passos".

Aos 46 anos, após anos de perda progressiva da audição, o compositor alemão Ludwig van Beethoven ficou completamente surdo. No entanto, compôs boa parte de sua obra, incluindo três sinfonias, em seus últimos anos.

Por isso não devemos achar nunca que NOSSO TEMPO acabou.

 Enquanto estivermos aqui, há algo para aprendermos e, muito possivelmente, alguém para aprender conosco também.
Não devemos estagnar na vida por medo.

VAI DESISTIR?

Crédito: Texto integralmente retirado do site www.negociosdefamilia.com.br.





Heróis da vida real: Zilda Arns e o bom combate.

15 01 2010

  

Segundo o dicionário Aurélio a palavra herói é um substantivo masculino que designa um “homem extraordinário por seus feitos guerreiros, seu valor ou sua magnanimidade”, infelizmente nunca uma palavra teve o seu significado tão deturpado como esta nos dias atuais. 

 Que o diga o Sr. Bial e os seus “heróis” de uma vez por ano enlatados (ou enjaulados) e os congêneres saídos das profundezas dos realittys que pipocam aos montes na tv…  

Pois então, relembremos que herói é quem enxerga o sofrimento alheio e procura dentro de suas possibilidades amenizá-lo (o velho olhar além do próprio umbigo), é aquele cuja paixão sobrepuja a omissão, que vence as próprias limitações e vícios para se tornar magnânimo, longe dos holofotes e das cameras, não são afeitos a encenações milimetricamente calculadas conforme caminham os índices do IBOPE, mas a gestos concretos de partilha. 

O herói é aquele que sabe que ninguém precisa de grandes sacrifícios ou grandes privações para fazer a diferença ou para ser considerado excepcional, mas precisa, fazer das suas atitudes mais simples às mais reais, porque estas é que movem e comovem o mundo. 

O herói está no asfalto, na rua, no hospital ao lado do que sofre, está nas esquinas ao lado do abandonado, na labuta do dia a dia e o seu mérito não está em suas caras e bocas. 

Os verdadeiros heróis são em sua grande maioria anônimos, morrem sem honras de estado, sem pompa, sem milhões, apenas com a consciência de ter feito o melhor para si e para o mundo,  que “combateram o bom combate”.

Talvez todo o dito aqui não passe de clichê, mas ainda assim não deixa de ser uma reflexão necessária, ainda mais em um mundo que cultiva como padrões de heroísmo as celebridades, os “brothers” a despeito daqueles que beneficiam e de alguma forma enriquecem não apenas a si mesmos, mas também as pessoas e o mundo. 

Não, definitivamente o herói não está confortavelmente na “casa mais vigiada do Brasil”, imerso num ambiente hedonista de sexo sob edredons, festas, bebedeiras, cujos maiores perigos a que se encontram expostos são os paredões, a rejeição do público,  não ganhar o prêmio milionário ou não se tornar a celebridade da próxima novela das oito…  

 Uma pena que somente quando nossos heróis verdadeiros partem é que voltamos a redescobrir o sentido deste substantivo. 

Mulher extraordinária

Eis a definição do dicionário Aurélio para heroína, o que bem define a Sra. Zilda Arns Neumann 75 anos médica pediatra e sanitarista, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança, fundadora e coordenadora nacional da Pastoral da Pessoa Idosa, organismos de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Dra. Zilda Arns também foi representante titular da CNBB, do Conselho Nacional de Saúde e membro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES).

Em 1983, a pedido da CNBB, a Dra. Zilda Arns cria a Pastoral da Criança juntamente com Dom Geraldo Majela Agnello, Cardeal Arcebispo Primaz de São Salvador da Bahia, que na época era Arcebispo de Londrina.

 Foi então que desenvolveu a metodologia comunitária de multiplicação do conhecimento e da solidariedade entre as famílias mais pobres, baseando-se no milagre da multiplicação dos dois peixes e cinco pães que saciaram cinco mil pessoas, como narra o Evangelho de São João (Jo 6, 1-15).

A educação das mães por líderes comunitários capacitados revelou-se a melhor forma de combater a maior parte das doenças facilmente preveníveis e a marginalidade das crianças.

Estima-se que após 25 anos, a Pastoral acompanha mais de 1,9 milhões de gestantes e crianças menores seis anos e 1,4 milhão de famílias pobres, em 4.063 municípios brasileiros. Seus mais de 260 mil voluntários levam fé e vida, em forma de solidariedade e conhecimentos sobre saúde, nutrição, educação e cidadania para as comunidades mais pobres.

No ano de 2004, a Dra. Zilda Arns recebeu da CNBB outra missão semelhante, fundar, organizar e coordenar a Pastoral da Pessoa Idosa. Calcula-se que atualmente mais de 129 mil idosos são acompanhados todos os meses por 14 mil voluntários. 

Até sua morte no terremoto do Haiti na terça-feira (12), a Dra. Zilda coordenava cerca de 155 mil voluntários, presentes em mais de 32 mil comunidades em bolsões de pobreza em mais de 3.500 cidades brasileiras.

O trabalho dela serviu de modelo para vários países, como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau; Timor Leste, Filipinas, Paraguai, Peru, Bolívia, Venezuela, Argentina, Chile, Colômbia, Uruguai, Equador e México. Sendo que em algumas dessas nações a própria médica ministrou cursos sobre como estruturar as ações.

Em 2008, Zilda participou da instituição da Pastoral da Criança Internacional, no Uruguai. Entre os fundadores estão os cardeais arcebispos Dom Geraldo Majella Agnelo, de Salvador, e Dom Odilo Pedro Scherer, de São Paulo, entre outros líderes religiosos e da sociedade civil.

Um trabalho de inequívoco apelo social, mas também de grandeza moral.

Em vez de usar as dificuldades da população pobre como matéria de proselitismo, a exemplo de ONGs movidas pela vigarice política ou autopromoção como algumas celebridades por aí, Zilda seguia a máxima cristã: deixava-se conhecer pela Palavra, mas também pela obra. A famosa “farinha múltipla” salvou certamente milhares de vidas, Zilda trabalhava efetivamente para minorar o sofrimento humano.

Dra. Zilda morreu como viveu: servindo ao próximo, fazendo a diferença objetivamente na vida das pessoas, atuando em favor dos mais necessitados, sem deixar que as condições as mais extremas abalassem a sua fé, os seus princípios, suas convicções.

Uma heroína de grandeza moral, integridade de carater, firmeza de postura e de carne e osso, mártir da vida!

Fontes de pesquisa: uol notícias, www.pastoraldacrianca.org.br