Muito além do sítio

26 03 2010

Há 90 anos acontecia a publicação de A Menina do Narizinho Arrebitado, primeira estória para crianças de Monteiro Lobato. Foi com essa obra que o escritor começou sua trajetória na literatura infantojuvenil, que o tornaria referência no país e no mundo. Mas a contribuição de José Bento Renato Monteiro Lobato para o país foi muito além. Advogado, fazendeiro, jornalista, editor, empresário. Acima de tudo, foi um idealista, estando sempre envolvido com as causas da época em que viveu. Lutou por um Brasil mais brasileiro e por uma literatura mais acessível, deixando para a geração atual uma obra crítica e esclarecedora sobre temas contemporâneos como qualidade da saúde, meio ambiente, reforma agrária e petróleo.

Viu? O homem não era só um rostinho bonitinho com uma sombrancelha bem delineada não...

Viu? O homem não era só um lindo rostinho com uma bela sobrancelha não...

Nascido em 18 de abril de 1882, Monteiro Lobato formou-se em Direito e atuou como promotor público, mas nunca escondeu sua paixão pelas letras. Desde os tempos de escola e também na universidade, colaborava com os jornais estudantis e, após sua formatura, passou a escrever artigos e fazer ilustrações para diversos veículos de comunicação. Logo, se tornou colaborador do maior jornal da época, O Estado de São Paulo, para o qual escrevia críticas e opiniões polêmicas a respeito do governo.

O papai da Menina do Narizinho Arrebitado, da boneca Emília, do Visconde de Sabugosa e outros não era fraco não!

Mas, foram as estórias infantis – responsáveis por metade de toda produção literária de Monteiro Lobato – que consolidaram o sucesso e a fama do autor. Quem nunca ouviu falar de Emília? Uma boneca de pano – descrita por Lobato como essas “que nas quitandas do interior custavam 200 réis” que, depois de ter sido visitada pelo doutor Caramujo, tomou uma “pílula falante“, e nunca mais parou de falar.

A boneca e os conhecidos personagens – Narizinho, Emília, Tia Nastácia, Pedrinho e Dona Benta, estavam presentes na maioria das estórias do autor. Ele costumava ainda juntar a esse grupo, figuras de diversas áreas como cinema, folclore e mitologia. Era possível encontrar no Sítio do Picapau Amarelo, Peter Pan, Saci-Pererê e, até mesmo, um minotauro.

Na sua produção de livros infantis, Lobato somou mais de 20 obras e diversos contos.

Foi precursor também na literatura paradidática, criando estórias que envolviam disciplinas escolares, como Aritmética da Emília, Geografia da Dona Benta e História do Mundo para Crianças. Além disso, traduziu e adaptou diversos livros estrangeiros, criticou livros já traduzidos e republicou-os, usando uma linguagem que chamou de “abrasileirada”. Alguns deles foram contos dos Irmãos Grimm, Robson Crusoé, Moby Dick e Alice no País das Maravilhas.

Se metade de sua produção literária foi infantojuvenil, pode-se dizer que a outra metade foi influenciada pelo seu envolvimento político.

Lobato trazia para suas histórias um pouco do que vivenciava, do seu espírito crítico e da realidade enfrentada pelo país. Mais do que isso, usava seus personagens para despertar a atenção sobre diferentes problemas.

Em uma série de artigos em que falou sobre saúde pública e saneamento apresentou um de seus mais conhecidos personagens: Jeca Tatu. Lobato o descreveu como um morador rural, sem hábitos de higiene. Para ele, essa era a figura de todo camponês, cuja personalidade seria resultado do atraso, da miséria e da exclusão social. A polêmica correu o país, ajudando a tornar o escritor conhecido e a obra Urupês – coletânea desses artigos -, um bestseller.

Agricultura, ecologia e saúde pública foram assuntos recorrentes em artigos e textos, que vieram a se tornar livros. O Escândalo do Petróleo, por exemplo, foi lançado em 5 de agosto de 1936 e, em poucos dias, os exemplares sumiram das prateleiras. Em 14 de agosto, foi lançada a segunda edição, com a mesma procura. Na obra, Lobato critica a política brasileira de exploração petrolífera e começa com a frase – polêmica, como era de se esperar: “Exércitos, marinhas, dinheiro e mesmo populações inteiras nada valem diante da falta de petróleo”.

Esse assunto rendeu mais do que polêmica para o autor, atraiu a inimizade de pessoas muito influentes no Brasil da época. Crítico inconformado que era, escreveu sobre a política de exploração de minérios ao então ditador Getúlio Vargas, mas foi acusado de tentar desmoralizar o Conselho Nacional de Petróleo e condenado a seis meses de prisão. Mesmo depois de libertado, continuou a divulgar suas opiniões, incluindo nos assuntos as torturas realizadas pela polícia do Estado Novo e os novos problemas que o país enfrentava.

A -HA, U-HU o petróleo é nosso...

Em 1947, escreveu Zé Brasil, que seria seu último texto. Nele, indignado, Lobato tornou Jeca Tatu um trabalhador rural sem-terra, que lutava por um espaço para plantar. Nos seus últimos anos, Monteiro Lobato sofreu com a censura da ditadura, com o processo de liquidação das suas empresas, com a morte de dois filhos e com a realidade de um país ainda cheio de problemas. Aos 66 anos, em 1948, sofreu dois acidentes vasculares cerebrais e morreu, deixando literatura de qualidade e espírito crítico para leitores de todas as idades. 

Fonte: Artigo retirado da Revista Ler & Cia, Março e Abril de 2010 – Edição 31 – Livrarias Curitiba págs. 08 e 09.





Todo carnaval tem seu fim…

17 02 2010

Depois da dionisíaca folia de Momo vem a quarta feira de cinzas que pode ter lá sua poesia também.

Abaixo trechos de um poema de T. S. Eliot que pode ser lido inteiro em português. Clique em Quarta-feira de Cinzas se quiser saber um pouco mais sobre esta data ou  link

Quarta-feira de Cinzas – T.S. Eliot (tradução Ivan Junqueira)

V

Se a palavra perdida se perdeu, se a palavra usada se gastou
Se a palavra inaudita e inexpressa
Inexpressa e inaudita permanece, então
Inexpressa a palavra ainda perdura, o inaudito Verbo,
O Verbo sem palavra, o Verbo
Nas entranhas do mundo e ao mundo oferto;
E a luz nas trevas fulgurou
E contra o Verbo o mundo inquieto ainda arremete
Rodopiando em torno do silente Verbo.

                          Ó meu povo, que te fiz eu.

Onde encontrar a palavra, onde a palavra
Ressoará? Não aqui, onde o silêncio foi-lhe escasso
Não sobre o mar ou sobre as ilhas,
Ou sobre o continente, não no deserto ou na úmida planície.
Para aqueles que nas trevas caminham noite e dia
Tempo justo e justo espaço aqui não existem
Nenhum sítio abençoado para os que a face evitam
Nenhum tempo de júbilo para os que caminham
A renegar a voz em meio aos uivos do alarido

Rezará a irmã velada por aqueles
Que nas trevas caminham, que escolhem e depois te desafiam,
Dilacerados entre estação e estação, entre tempo e tempo, entre
Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder, por aqueles
Que esperam na escuridão? Rezará a irmã velada
Pelas crianças no portão
Por aqueles que se querem imóveis e orar não podem:
Orai por aqueles que escolhem e desafiam

                       Ó meu povo, que te fiz eu.

Rezará a irmã velada, entre os esguios
Teixos, por aqueles que a ofendem
E sem poder arrepender-se ao pânico se rendem
E o mundo afrontam e entre as rochas negam?
No derradeiro deserto entre as últimas rochas azuis
O deserto no jardim o jardim no deserto
Da secura, cuspindo a murcha semente da maçã.

                     Ó meu povo.

(…)





Machadeando um pouco…

18 01 2010

 Se a palavra fenômeno remete você à algum jogador famoso está na hora de começar a rever seus conceitos, se há alguém que pode ser assim chamado este alguém é o escritor Machado de Assis.

De origem humilde, órfão, mulato, de saúde frágil, epiléptico, gago e autodidata tornou-se um dos grandes da literatura brasileira e mundial, uma biografia que é um verdadeiro exemplo de heroísmo, autosuperação e luta e que mais à frente trataremos em um post futuro.

Não é à toa que proliferam estudos internacionais sobre este ilustre brasileiro.

Foi mais do que romancista, cronista notável e homem do seu tempo, seu olhar arguto de psicólogo, ao radiografar a sociedade carioca novecentista, descobriu o homem universal. Ah, também foi poeta notável…

"Suporta-se com paciência a cólica dos outros"

Uma Criatura

Sei de uma criatura antiga e formidável,
que a si mesma devora os membros e as entranhas,
com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
e no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
gosta do colibri, como gosta do verme,
e cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
e caminha na terra imperturbável, como
pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
vem a folha, que lento e lento se desdobra,
depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois esta criatura está em toda a obra;
cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
e é nesse destruir que as forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
começa e recomeça uma perpétua lida,
e sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

(Machado de Assis)





Não tema…Início de semana com poema, não tem problema!

11 01 2010

Ai, ai...Sem poesia fica difícil...

O Poço

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

Neftalí Ricardo Reyes, dito Pablo Neruda. Poeta chileno (Parral 1904 – Santiago 1973).





Um pouquinho de Leminski sempre faz bem…

2 12 2009

Eu sei que o bigode confunde, mas não é nem Lenin, nem Trotsky, nem Stalin é simplesmente o grande poeta Paulo Leminski.

Enchantagem

de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo
esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrima
de tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito
pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito
que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar
tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade
o pau na vida
o vinagre
vinho suave
pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade





Versos em plena Quarta.

11 11 2009

velhinhos

Soy

 Soy el que sabe que no es meno vano que el vano observador que en el espejo de silencio y cristal sigue el reflejo o el cuerpo (da lo mismo) del hermano.

Soy, tácitos amigos, el que sabe que no hay otra venganza que el olvido ni otro perdón. Un dios ha concedido al odio humano esta curiosa llave.

Soy el que pese a tan ilustres modos de errar, no ha descifrado el laberinto singular y plural, arduo y distinto, del tiempo, que es uno y es de todos.

Soy el que es nadie, el que no fue una espada en la guerra. Soy eco, olvido, nada.

Jorge Luis Borges (poeta argentino)





E só porque é segunda…

19 10 2009

Que tal iniciar a semana com um pouco mais de poesia?

Vai um pouco de poesia aí cumpádis?

Vai um pouco de poesia aí cumpádis?

                                                       Traduzir-se

Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta: outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem: outra parte linguagem. Traduzir-se uma parte na outra parte que – é uma questão de vida ou morte – será arte?

(Ferreira Gullar – Na vertigem do dia)